
“Screaaam for me, Recife!” - por onde o Iron Maiden passa, o vocalista Bruce Dickinson pede para o público gritar. Não foi diferente aqui. Os recifenses – somados a fãs de todo o Nordeste – gritaram. E gritaram muito, em um show que, apesar de não ter alcançado o número estimado de presentes, marcou época e dividiu águas numa terra tão sedenta de atrações internacionais. Se 18 mil pessoas conseguiram ir ao Jockey Club de Pernambuco numa terça-feira, imagine o que poderia ser num sábado.
O Iron Maiden provocou um verdadeiro pandemônio nas cercanias do Jockey. Era gente passando para lá e para cá, vendedores oferecendo camisas piratas e um monte de gente tentando entrar no local. Enquanto do lado de fora carros de mala levantada tocavam as músicas que se ouviriam lá dentro pouco tempo depois, um bocado de fãs se pendurava em árvores e no muro do hipódromo – mas a polícia sempre chegava e acabava com a festa temporária da rapaziada. Ingressos eram vendidos até por um preço menor do que na bilheteria.
O Jockey foi um lugar de congraçamento. O que se via, antes de o Iron Maiden subir ao palco, era amigos de longa data se reencontrando. Abraço foi o que não faltou. Até que, quando todo mundo começou a olhar para o relógio, um pano de fundo com o nome e a foto de Lauren Harris foi baixado. Eram quase 20h e o que se ouvia eram gritos de “Gostosa!”. Os elogios eram direcionados para a cantora filha do baixista do Iron Maiden, cuja inclusão na turnê Somewhere back in time só pode ser explicada pelo parentesco. Até simpática Lauren é, mas, para quem já teve bandas do calibre de Queensryche, Metallica e Trivium como opening acts, o grupo da inglesa de 24 anos deixou muito, mas muito a desejar. Uma música derivativa, sem personalidade, sem punch, foi o que se ouviu durante meia hora. E os recifenses foram até educados. Ninguém vaiou a apresentação da filha mais velha de Steve Harris. Mas os 30 minutos que a cantora descalça gastou poderiam ter sido utilizados de uma maneira mais proveitosa.
“Irado”. Foi desse jeito que Ingrid Vilar respondeu ao que achava de ver o Iron Maiden no dia do seu aniversário de 15 anos. Do lado dela, a mãe professora e o pai engenheiro, vindos de Maceió (AL), pareciam mais animados. “Ver um show desses, aqui, praticamente vizinho, é muito bom”, disse Yuri Vilar, 37 anos, pai de Ingrid. Mas quando começou a rolar nos PAs as primeiras notas de Doctor Doctor, do Ufo, quem é fã do Iron Maiden sabia o que viria a partir dali. Terminada a canção da banda americana que influenciou os britânicos, foi a hora de os acordes de Transylvania, do primeiro disco do maior grupo de heavy metal do mundo. Foi também a senha para um caos, no bom sentido, ter início. A voz de Winston Churchill avisou: “Nunca nos renderemos”. E o Jockey não entendeu e se rendeu: Aces high abria o show mais esperado de todos os tempos no Nordeste.
A abertura do show do Iron Maiden, poucos minutos depois das 21h, deu o gás que a platéia esperava. Bruce Dickinson (vocal), papai Harris (baixo), Nicko McBrain (bateria), Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers (guitarras) sabem muito bem o que fazem. Heavy metal do bom e do melhor. “Nunca imaginava que um show desse aconteceria aqui. Agora é esperar por Rush, Metallica e ACDC”, sonhava João Batista Falcão, 47 anos, que começou a ouvir a banda em 1980. Foi do disco lançado um ano depois que a banda desencavou Wrathchild.
Alguns fãs acusaram o Iron Maiden de ter sido burocrático. Afinal, o repertório publicado na edição de terça-feira do Jornal do Commercio e antecipado neste JC Online desde sexta foi exatamente o mesmo. Quem apostou que Two minutes to midnigh viria a seguir ganhou. Nada mal. Um Iron Maiden previsível é ainda muito melhor que dez bandas que se dizem salvadoras do rock.
A sequência de clássicos não parou por aí. Era hora de voltar a 1982, com Children of the damned. Depois, como quem faz de conta que é tudo tão simples, Bruce anuncia Phantom of the opera. O clássico do primeiro disco do Iron Maiden fez a platéia delirar. E haja gente pulando, gritando, sorrindo. “Se eu não estivesse trabalhando, viria ver”, dizia um bombeiro, que não pôde dizer o nome – sob o olhar mal encarado do chefe.
As palmas do público ajudaram Bruce a anunciar The trooper. É nessa música que o vocalista veste um uniforme vermelho, similar ao usado pelos ingleses na Guerra da Criméia, contra os russos, no século 19. Esses detalhes históricos ficaram em segundo plano diante do clássico do Piece of mind (1983). Um momento ímpar, que ganhou fôlego com a execução de Wasted years, de 1986.
Qualquer outra banda correria o risco de morgar a platéia ao tocar uma canção de 13 minutos. Não o Iron Maiden. Rime of the ancient mariner levantou o público com a sua variedade de climas, ritmos e batidas. E quando Harris empunhou seu baixo e tocou o singular tema que introduz o resto da música, ah, meu amigo, não houve gente parada...
De máscara egípcia, Bruce comandou com maestria mais um clássico. Powerslave foi marcada por fogos, mas sem o Eddie, mascote da banda, em forma de múmia, igual ao que o público paulista viu. Besteira, porque eles entram logo com Run to the hills. E aí não tinha um cidadão sequer que tenha ficado calado.
Quem gosta de Iron Maiden sabe que um momento sem comparação no show é Hallowed be thy name. A mistura de ritmos da canção de 1982 emociona – e não era difícil ver fãs chegarem às lágrimas. Aí era o momento de Iron Maiden. Pense numa música eficiente. Faz mais de 30 anos que os caras a tocam e a recepção é sempre histérica. Também pudera: é a hora do Eddie ciborgue, um gigante de mais de 3 metros portando uma pistola e simulando até mesmo uma masturbação.
Exausto e extasiado, o sexteto faz o migué e encerra o show. Conversa! O povo chama e a banda volta com The number of the beast, com direito a iluminação vermelhona e fogos de artifício. Fica fácil advinhar que a próxima é The evil that men do, uma canção de 1988, rápida e instigante. Até que a hora do fim chega. Sanctuary vem com a promessa de Bruce de que a banda voltará ao Brasil em 2011. “Vamos gravar o novo álbum em 2010”, diz o cantor. Ele apresenta a banda – como se 90% dos presentes não soubessem de cor a formação.
Um show antológico. Um show que mostrou uma banda, apesar de finalizando a turnê, em forma. Um show que deixou o Recife com água na boca. Quem sabe o que virá depois?
Por:
Wilfred Gadêlha Especial para o JC Online